Pesquisar este blog

Palavras

Palavras
"Quem não vê bem uma palavra, não pode ver bem uma alma" F. Pessoa



terça-feira, 30 de março de 2010

Fernando Pessoa

Não deixe de ver esse video http://vimeo.com/5823275...

Um dos meus autores favoritos de poesia é o genial Fernando Pessoa... e Alberto Caeiro, o Mestre:


O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.




O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.



Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.



O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

 O lirismo, a imaginação, a realidade... Tudo. Por que "há metafísica o bastante em não pensar em nada".


O que haverá além de mim mesma?

sexta-feira, 26 de março de 2010

Livres sonhos

   As Pombas

                                                 Raimundo Correia*


Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
Das pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sangüinea e fresca a madrugada.

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais, de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam
Os sonhos, um a um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.


Assim como as pombas deixam os pombais, os sonhos deixam os nossos jovens corações para dar lugar a outras aspirações... Já não tenho os desejos de menina... O que quero é diferente. Porém, não significa que os sonhos não estejam vivos dentro de mim. Ao contrário: me permito que novas "pombas" venham, cada qual em seu instante precioso, único... Assim como o que sinto: cada instante tem seu valor, cada pomba em mim alça novos céus, voa livre no espaço aberto, ganhando a  liberdade...
Tenho muitas pombas: deixo-as voar, deixo os sonhos se tornarem reais, para voltarem vitoriosos ao meu pombal.

*Raimundo Correia (1859-1911) poeta parnasiano também foi cronista, ensaísta, advogado, magistrado, professor e diplomata.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Mulher

Com licença poética
Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
(dor não é amargura).
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.


FELIZ DIA INTERNACIONAL DA MULHER!!!

Gavetas

Sinto que em mim cabe muito... O espaço é grande... Então preciso organizar o que sinto - o que tenho para oferecer - o que necessito guardar - o que tenho para compartilhar - misturar - doar - receber - fazer...

Para tanto, me divido em gavetas...

Abro e fecho as gavetas de minha vida, sempre para guardar algo novo, recolher uma lembrança, refazer uma memória, sentir outra vez uma sensação, ou deixar algo em lugar menos acessível... Ou misturar tudo o que há em tais compartimentos, para que espalhadas em mim, me façam sorrir...

Tudo se casa - tudo o que sou está em minhas gavetas... Estão separadas, mas ao mesmo tempo, são uma só: minha família, meus amigos, meu Amor, meus alunos, meus professores, minhas lembranças, meus medos, projetos, sonhos, delícias, desejos, mágoas, tristezas, intuições... Há tudo o que me constitui - reflexos do que sou, fui e há espaço para o que serei.

Exploro meus recantos, e me (re)vejo menina...Testemunho o aprendizado de ser mulher...  Saboreio o gosto de mim mesma, e guardo a sensação - tudo o quanto de mim, dos outros, das coisas...

Assim, dou a mim mesma o presente diário de desvendar o que ainda não sei e de ter muitas outras gavetas, para ser o que sou e me tornar melhor a cada dia.

Assim, todos(as) que lerem sobre tais gavetas, terão a certeza que estão em uma delas, cuidados(as) com o maior esmero... Quando sinto que alguém que está em mim precisa de um sorriso, abraço, beijo, uma conversa, ou algo que eu possa fazer, uma luz de alerta de acende e faz chacoalhar o espaço que esse alguém possui... Já aconteceu de muitas luzes se acenderem e de sentir muitas gavetas se agitarem ao mesmo instante... Mas com o Tempo, tudo se acalma.

Dessa forma sou grata as pessoas que passaram pela minha vida, pois fazem parte de mim de maneira única e especial: cada um leva um pouco de mim, mas também deixa um pouco de si...


"Sê como a árvore do sândalo que perfuma até o machado que a corta" (Tagore)

sexta-feira, 5 de março de 2010

Ter ou não ter namorado

por Carlos Drummond de Andrade


Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabira, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado mesmo é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio, e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.




Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, dois amantes e um esposo; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche da padaria ou drible no trabalho.




Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria.




Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de curar.



Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário.



Não tem namorado quem não gosta de dormir, fazer sesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele; abobalhados de alegria pela lucidez do amor.



Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela a parques, fliperamas, beira d’água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.



Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.



Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Não tem namorado que confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.



Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos. Ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio.



Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.